Limites da transição

Crédito: Roman Tolici

Crédito: Roman Tolici

I certainly believe we all suffer damage, one way or another. How could we not,except in a world of perfect parents, siblings, neighbours, companions? And then there is the question on which so much depends, of how we react to the damage: whether we admit it or repress it,and how this affects our dealings with others.Some admit the damage, and try to mitigate it;some spend their lives trying to help others who are damaged; and there are those whose main concern is to avoid further damage to themselves, at whatever cost. And those are the ones who are ruthless, and the ones to be careful of [ Julian Barnes – The Sense of an ending ]

Tem dias que minha voz vira um fiapo e é difícil falar sobre qualquer coisa. Seja algo trivial ou sério. O pouco que resta de ruído vai se esvaindo e nessas horas a única forma de materializar a dificuldade é chorando. E você então chora largado e sem ressalvas, porque precisa, faz bem, e por vezes é o único meio possível de sentir uma manifestação de alívio. Tenho aí, contra minha vontade, um paradoxo: ao mesmo tempo que o choro me tranquiliza, o processo todo me dói de um modo MUITO agudo. É como se estivesse deixando exposta toda minha fragilidade, mais ou menos um “toma aí, pronto, dei o braço a torcer e estou desmoronando”.

“we’re concentrated on falling apart”

Existe o desejo de acreditar, ter fé, algum suspiro de esperança. Em contrapartida, quem também está lá, lutando com sua força para sair do buraco, é a especialidade em querer afundar ainda mais. Existe uma pegada meio can’t feel anything, when will I learn? I push it down, I push it down. Quando você se machuca muito passa a duvidar da possibilidade de se ferir ainda mais. Todo ser humano quer ter um lugar, mesmo que ele seja ruim. Mais ou menos como ter uma vontade tão absurda de viajar que você nem se importa em ficar no meio em uma fileira com três poltronas. Ou se jogar em um canto e lá ficar, ainda que não seja o lugar mais confortável do mundo. Mesmo não estando à vontade ou feliz com aquilo, comemore, campeão, você encontrou um lugar.

Às vezes nos contentamos em TER um lugar. Ou rola um conformismo: sabe-se não ser o canto mais apropriado, sabe-se das mazelas de ali permanecer, mas apesar da contradição vem também a sensação de quiçá merecer tudo aquilo. E é bem mais fácil afundar a tentar subir uma escada muito íngreme.

Por esse ponto de vista fica compreensível o desespero latente quando se tenta mudar de posição. Ter perspectiva mexe conosco, não há como negar. Tudo parece tão tentador no fim que, ao ver as coisas rolando tão devagar, parecendo que não vão mudar nunca, desanima. Aí entra e derrocada.

Porque em momentos de dor não pensamos que a sequência da vida não precisa ser linear, nem que o tempo cronológico foi um negócio criado para dar noção ao homem de que ele tem controle de alguma coisa. Pois não temos. E nessas de não controlar tudo desanda mesmo, e isso é humano. Viver é isso: é ter momentos de euforia intensa e, segundos depois, ser afetado por uma informação violenta o suficiente para não conseguir nem sair de casa por dias, pois falta ânimo. Uma montanha-russa dessas bem tecnológicas a malucas, tão poderosa que parece infinita.

Por isso tenho um pouco de aversão ao símbolo do infinito. Ele remete à minha montanha-russa interna, essa coisa desgovernada e com um mecanismo que me parece tão estranho. Nunca senti meu coração tão angustiado, porque quero ter paciência mas o desespero sempre faz questão de despontar nos meus momentos de maior serenidade.

Me encontro sem nenhuma defesa e até por isso a transição provoca tanta dor. Mudar é como ter um corpo estranho te invadindo, e por puro instinto o organismo rejeita em um primeiro momento. Mas aos poucos tomo consciência da necessidade de impor limites e respeitar meu ritmo de transição. Nesses momentos faço o possível para me prender às coisas boas que despontam de tempos em tempos.

Tipo uma citação de Proust, da série Em busca do tempo perdido, que o Caio me mandou em uma de nossas conversas, e com a qual fecho o texto deixando um espaço para reflexão.

“Assim vai mudando o nosso coração, durante a vida, e esta é a pior das dores; porém só a conhecemos atrás da leitura, pela imaginação: na realidade o coração se transforma da mesma maneira como se produzem certos fenômenos da natureza, tão vagarosamente que, embora possamos verificar de modo sucessivo seus estados diferentes, em compensação nos foge a sensação da mudança”

[ Escrito em 21/09/2015 ]

[ Vocês podem encontrar mais trabalhos de Roman Tolici, da ilustra no início do texto, aqui ]

 

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