Desacelerar

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Entra ano, sai ano, e sigo no processo inconsciente de me pilhar cada vez mais. Aquela mania de arranjar mil compromissos, sentir culpa ao recusar convites, e terminar reclamando da falta de tempo. Muito bonito ser responsável pela própria desgraça, não é mesmo? Culpei São Paulo por muito tempo pois se enganar é outra arte que domino com muita habilidade. O nome disso é simples: vida adulta. Às vezes releio uns textos antigos do meu outro blog e penso naquela inocência de não ter noção do que me esperava no pós-20 anos. O mecanismo parecia tão simples em teoria: terminar a faculdade, arranjar um trabalho ou continuar onde já estava, sair vez outra e pagar as contas. Mais ou menos como comprar passagens aéreas sem pensar em hotel e no dinheiro a ser gasto no destino.

Desconstruí o mecanismo dentro das minhas possibilidades e descobri o quão difícil é parar e respirar quando nos jogamos no meio do furacão. É como se até nosso corpo relutasse em aceitar que por vezes é preciso desacelerar. Ele teima muito e quando aceita e entende o quão problemático pode ser para você, se manifesta. Assim nascem a gastrite, a enxaqueca, ou qualquer outro tipo de mal-estar físico. Teu corpo te força a dar um tempo. Comigo aconteceu na forma de um joelho com diagnóstico de condromalacia patelar, mas já perdi a conta de quantas vezes tive crises pesadas de gastrite e rinite ao ser confrontada por problemas cotidianos. Foi importante dedicar meu tempo ao autoconhecimento porque hoje consigo pegar muitos desses sintomas antes de se manifestarem.

Quando entramos na vida adulta, muita coisa foge do nosso controle. Uma recomendação que sempre faço às amigas à beira de um ataque de nervos como eu é tirar um tempo para refletir e, se possível, pegar um papel e anotar todas as coisas que estão te incomodando no momento. Analise uma a uma. Escrever ajuda a observar com mais clareza. Você vai notar que muita coisa da lista pode ser resolvida com medidas simples – e dá até pra montar um cronograma em cima disso, colocando os itens mais “resolvíveis” no topo e deixando coisas a longo prazo para o fim da lista. Às coisas mais impossíveis, cabe refletir sobre alternativas para lidar com cada uma.

E claro, essa é a parte do choque de realidade. Pensamos em alternativas e as mais viáveis nem sempre são as que gostaríamos. Parte do processo de autoconhecimento consiste, aliás, em entender quais são os seus limites e respeitá-los.

Eu, por exemplo, me encontrei na escrita. Nada elaborado e com o intuito de ser publicado. De costume pego a agenda e escrevo uma frase mesmo, simples, curta e direta. Colocar no papel é como transferir um sentimento do corpo para outra instância. Na minha cabeça isso traz um pouco de conforto ao momento, mesmo que seja uma coisa rápida. Tem gente que vai colorir, correr, pintar, desenhar. Comigo funciona escrevendo.

Este primeiro post de 2017 é um convite às velocidades reduzidas, ao “dar tempo ao tempo”, respeitar o nosso ritmo – que nunca vai se adequar ao considerado certo pelos outros. Permitir-se parar antes que o corpo resolva pedir bandeira branca.

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Ser vista

Já fui como uma boneca para minha irmã. Quando era pequena, ela me montava. Arrumava cabelo, maquiava, e fazia ensaios completos. Lembro pouco da minha versão pequena, tão desinibida e espontânea nos registros. Houve algum impacto na transição infância – adolescência, pois peguei horror de câmeras. Talvez fosse o efeito dos hormônios, eu não tinha mais a graça de uma boneca, fiquei disforme, meus cabelos entraram em uma longa crise de identidade, calças não me serviam, até a fala virou fiapo. Era assustadora a possibilidade de ter registros físicos daquela fase. Me esquivei ao máximo, como toda adolescente habilidosa. Até arrisquei ficar atrás das câmeras por um tempo e encontrei na atividade muito amor. Me dediquei por um bom tempo e nem me dei conta do momento em que a abandonei.

Ser fotografada outra vez – ainda mais agora, adulta, não passou pela minha cabeça. Até conhecer o trabalho da Pryscilla. Ela é de Brasília, um ano mais nova que eu, e de um talento sem igual. Vi em seu olhar muita delicadeza para fotografar o feminino. Cada foto transparecia poesia e melancolia. De imediato me identifiquei com essas características e arrisquei mandar uma inbox manifestando interesse em fazer um ensaio.

Pensei em minhas vivências e em quanta coisa me machucou ao longo de 2016. Foi um ano pesado para todo mundo, claro, e em meio a tantas desgraças tive algumas lições de amor próprio. Dei abertura para trocas, ouvi muita gente, opinei, e aprendi a aceitar elogios. Foram anos brigando com o corpo, me sentindo feia e, se não bastasse, apareceram pessoas pelo caminho que faziam questão de se aproveitar disso para me diminuir ainda mais. Aqueles comentários inocentes que enaltecem o quão magra, bonita e desejada você é podem tocar em questões sensíveis para quem possui baixa autoestima, fica a dica. A sociedade como um todo é bem doente da cabeça também, com esse anseio maluco de esfregar padrões na nossa cara. Sabe, ninguém se ajuda, ninguém vai TE ajudar. Aprender a gostar da imagem refletida no espelho depende apenas de você.

Entendi, a muito custo, que não era gorda, nem feia e que oras, essa obsessão por padrões não precisa fazer parte da minha vida. Passei a reconstruir minha imagem – e para mim, a quem isso de fato importa. Não foi um advento milagroso e nem passei a me achar a pessoa mais linda do mundo, mas agora respeito minhas particularidades e estou na luta para visualizar meus defeitos com mais carinho, deixar de lado essa coisa de ser tão agressiva comigo mesma. Deu vontade de guardar uma lembrança desta aceitação. De um dos pontos mais significativos deste ano, por sinal. Depois de tanto tempo batendo boca com a minha imagem e autoestima, consegui até abrir mão do tal estigma do egoísmo.

Queria alguém capaz de colocar minha essência nas imagens – não só essa beleza em vias de descoberta, mas também minha sensibilidade e todas as outras questões psicológicas que seguem aqui dentro e, em certa medida, despontam no meu corpo. A Pryscilla parecia a pessoa ideal para isso, e naquela época não conseguia mensurar o acerto da minha decisão.

Depois de acompanhar tanta gente descrente das perspectivas profissionais (me incluo neste time), ver alguém tão apaixonada pelo que faz foi algo bem próximo à experiência de entrar no mar pra renovar as energias. A Pry é dedicada a ponto de me “investigar”o fotografado antes mesmo de agendar a data do ensaio. Trocamos muitos áudios no whatsapp. Nunca fui fotografada e desconhecia essa troca prévia, não tenho ideia de como funciona normalmente, mas não imaginava que ela pediria mais do que fotos de referência. De repente me deparei com uma pessoa preocupada de verdade em colocar nos retratos muito mais do que minha imagem. No dia do ensaio não foi diferente – conversamos muito antes de dar início à sessão. Ela foi cuidadosa o tempo inteiro, a ponto de conseguir me tranquilizar com essa ideia – até então muito maluca para mim – de ser fotografada.

Estar em evidência foi diferente e inesperado – no fim das contas gostei da experiência. Não senti vontade de olhar as fotos no visor ao longo da sessão, queria me deixar surpreender. E olha, o visor apresenta uma versão compacta, não dá para mensurar. Fiquei em choque quando recebi o arquivo com o ensaio completo. No primeiro momento não me reconheci. Era difícil acreditar que poderia transmitir tanta força no olhar e me achar bonita de verdade. Reconheci em cada retrato o melhor de mim. Foi como visualizar a Lidyanne de agora dando uma surra na Lidyanne que entrou na primeira sessão de análise repetindo a frase “eu sou muito fraca”.

Por isso digo: nunca subestime o poder positivo da imagem. Use a seu favor. Se você precisa de um empurrão para dar início a essa saga em busca de amor próprio, faça um ensaio – vale demais o investimento. E se for para fotografar com a Pryscilla, incentivo ainda mais a ideia.

Ela me enviou as fotos em um momento fundamental. Ao observá-las me senti segura para tomar algumas decisões, consegui acreditar na minha força e no meu potencial. Iniciei um trabalho diário para encontrar cada característica positiva vista nos retratos. Entrei em contato com a minha reflexão pós-meia maratona. Em todo o percurso, em especial após os 16k, comecei a proferir mensagens motivacionais capazes de ofuscar a dor nos pés. Foi uma sequência de “você não tem dimensão da sua capacidade”, “é mais forte que imagina”, “vai, você é valente e já aguentou tanta coisa, o que é uma corrida de 21k?”, e variações de tudo isso. Precisei daquilo para dar conta dos mini-saltos da corrida ao longo de duas horas e vinte minutos. Se eu conseguia acreditar nas minhas palavras para me levar ao pórtico no fim do percurso, por que era tão difícil me aceitar e dizer palavras positivas para mim no dia a dia?

As fotos deram corpo a essas frases. Agora basta me sentir para baixo para abrir essas fotos, olhar uma a uma, e não me deixar levar por pensamentos pesados e negativos. Amor próprio é construção, e para se colocar no mundo essa edificação precisa se sustentar. Ter essa segurança te ajuda a encarar o mundo com mais leveza, a se sentir mais humana perto de outras pessoas e aliviar a carga das cobranças sociais.

love is flying, sown, floating

o coração é também uma cicatriz.
grande, em carne viva, de pulsações meio  violentas.
parece uma criança levada em seu descontrole.
não dá para segurar com as mãos,
às vezes nem com a alma.
tirei dele as ataduras, uma a uma.
“take off your band-aids ‘cause i don’t believe in touchdowns”
tô deixando tomar um ar.